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Delírios II - Alquimia do verbo (trechos) - Arthur Rimbaud

  Para mim. A história das minhas loucuras. Há muito me gabava de possuir todas as paisagens possíveis, e julgava irrisórias as celebridades da pintura e da poesia moderna.
    Gostava das pinturas idiotas, em portas, decorações, telas circenses, placas, iluminuras populares; a literatura fora de moda, o latim da igreja, livros eróticos sem ortografia, romances dos nossos antepassados, contos de fadas, pequenos livros infantis, velhas óperas, estribilhos ingênuos, ritmos ingênuos.
   Sonhava com as cruzadas, viagens de descobertas de que não existem relatos, repúblicas sem histórias, guerras de religião esmagadas, revoluções de costumes, deslocamentos de raças e continentes : acreditava em todas as magias.
     Inventava a cor das vogais! - A negro, E branco, I vermelho, O azul, U verde. Regulava a forma e o movimento de cada consoante, e, com ritmos instintivos, me vangloriava de ter inventado um verbo poético acessível, um dia ou outro, a todos os sentidos. Era comigo traduzi-los.
  Foi primeiro um experimento. Escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens.

(...)

   A velharia poética tinha boa parte na minha alquimia do verbo.
   Acostumei-me à alucinação simples: via fácil uma mesquita no lugar de uma fábrica, uma aula de tambores dada por anjos, carruagens nas rotas do céu, um salão no fundo de um lago; os monstros, os mistérios; um título de comédia me sugeria assombros.
    Em seguida, explicava meus sofismas mágicos com a alucinação das palavras!
   Acabei por considerar sagrada a desordem do meu espírito. Estava ocioso, com febre; invejava a felicidade dos animais - as larvas, que representam a inocência dos limbos, as toupeiras, o sono da virgindade!
    Meu caráter se azedava. Dizia adeus ao mundo em espécies de canções (...).

(Extraído de "Uma temporada no inferno", de Arthur Rimbaud, da editora L&PM Pocket.Tradução de Paulo Hecker Filho)




Arthur Rimbaud (1854-1891) foi uma das mais impressionantes vozes poéticas já vistas. Toda a sua vigorosa obra, transbordante de dor, angústia e violência foi escrita durante a sua juventude. Aos 21 anos, iniciou um silêncio poético que perdurou pelo resto de sua vida. Mesmo assim,sua pequena obra influenciou alguns dos maiores escritores dos séculos XIX e XX.



O poeta escandalizou a sociedade parisiense de sua época: chocava-a pelo modo de vestir-se, pelo modo de comportar-se, pelo relacionamento amoroso com o poeta Paul Verlaine (marcado pela boemia, pelo excesso de álcool e pelo haxixe). Renegou a religião, a sociedade burguesa em que vivia, as fórmulas poéticas de seu tempo. Em suma, Rimbaud foi uma grande expressão de radicalismo artístico do seu tempo.


Futuramente, postarei aqui no blog outros textos relacionados a este grande poeta. :)

Um comentário:

  1. Sobre a ilustração pueril de um desenho no estilo pausterizado do mangá, não tem nada a ver com a estética corrosiva de Rimbaud. Seria mais ou menos ilustrar uma página com as letras do The Doors com uma foto da Xuxa. Quem fez isso não entende nada do contexto rimbaudiano.

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